
EUA avançam no Paraguai com acordos militares, doações milionárias e atuação autorizada no país, mudando o equilíbrio do Cone Sul e acendendo alerta na segurança regional
A aproximação entre Assunção e Washington envolve doações milionárias, treinamentos militares, vigilância fluvial e avanços em ciberdefesa, colocando o Paraguai no centro de um novo rearranjo estratégico no Cone Sul e despertando atenção de governos e analistas regionais.
Movimentos militares raramente acontecem de forma isolada.
Quando envolvem grandes potências e países estrategicamente posicionados, costumam produzir efeitos que ultrapassam fronteiras e alteram o equilíbrio regional.
Na América do Sul, uma série de acordos recentes colocou o Paraguai no centro de um debate que mistura segurança, soberania, crime organizado e interesses geopolíticos globais.
A ampliação da cooperação militar entre Assunção e Washington passou a chamar a atenção não apenas pelo volume de recursos envolvidos, mas também pelo impacto potencial sobre países vizinhos, especialmente o Brasil.
Acordos militares ampliam cooperação entre Paraguai e Estados Unidos
Segundo informações do portal Gdia, a cooperação militar entre Paraguai e Estados Unidos foi formalizada por meio de quatro acordos bilaterais.
Os entendimentos preveem cerca de US$ 30 milhões em doações, treinamentos especializados e investimentos em infraestrutura de defesa.
Os acordos envolvem diretamente o Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos, responsável pelas operações militares norte-americanas na América Latina.
A consolidação dessa parceria ocorreu após a apresentação do Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA).
O instrumento jurídico estabelece as regras que permitem a atuação de militares e pessoal civil dos Estados Unidos em território paraguaio, criando um marco legal para atividades conjuntas de segurança.
Vigilância fluvial se torna eixo estratégico da cooperação
Um dos principais pilares dos acordos é o programa Resiliência Naval.
A iniciativa tem como foco o monitoramento dos rios Paraná e Paraguai, considerados estratégicos para o comércio, a logística regional e o combate a atividades ilícitas.
De acordo com o ministro da Defesa do Paraguai, general da reserva Óscar González, o acordo prevê a doação de dez lanchas de patrulha e duas embarcações de maior porte.
Uma embarcação já está no país, enquanto seis devem chegar entre janeiro e março de 2026, com as demais previstas para entrega ao longo do ano.
As lanchas possuem cerca de oito metros de comprimento, capacidade para até 15 pessoas e contam com equipamentos fornecidos pelo Comando Sul, que também será responsável pelo treinamento das tripulações.
Treinamento militar intensivo reforça capacidade operacional
Outra frente da cooperação envolve a capacitação de tropas paraguaias para crises e contingências.
Em janeiro, um avião das Forças Armadas dos Estados Unidos pousou no Paraguai transportando um oficial e 11 sargentos norte-americanos.
O grupo ficará responsável por treinar 40 militares paraguaios durante um período de seis meses.
O programa inclui instruções em tiro e explosivos, combate em ambientes confinados com foco em resgate de reféns, natação de combate, além de cursos de atirador de elite e especialista em explosivos.
Ciberdefesa avança com criação de centro de operações
Os acordos também avançam sobre a área de cibersegurança e ciberdefesa, considerada estratégica pelas autoridades paraguaias.
Segundo o chefe da Direção Geral de Tecnologias de Informação e Comunicação, general Roger Camacho, foram liberados US$ 3,5 milhões para equipamentos e capacitação técnica.
Os recursos permitirão a criação de um Centro de Operações de Segurança (SOC).
O centro será responsável pelo monitoramento de ameaças digitais e pela resposta a ataques cibernéticos contra sistemas governamentais e militares.
De acordo com o governo paraguaio, os equipamentos devem chegar ainda em 2026.
Impactos para o Brasil entram no debate regional
A ampliação da presença militar dos Estados Unidos no Paraguai ocorre em um contexto regional sensível.
Em dezembro, um novo acordo autorizou formalmente a atuação de forças norte-americanas no país, reacendendo debates sobre soberania e equilíbrio geopolítico no Cone Sul.
O tema ganhou atenção especial no Brasil, principal potência militar da região e vizinho direto do Paraguai.
Segundo o pesquisador e professor de Relações Internacionais Vitelio Brustolin, em entrevista ao portal R7 Notícias, a cooperação pode ter efeitos diretos sobre a segurança brasileira.
De acordo com Brustolin, a presença militar dos Estados Unidos no Paraguai tende a impactar o Brasil de forma positiva, especialmente no combate às organizações criminosas que atuam na região da Tríplice Fronteira.
O pesquisador afirmou ao R7 que o fortalecimento da cooperação internacional pode dificultar a atuação do narcotráfico, do contrabando e de redes criminosas transnacionais que utilizam a região como corredor logístico.
Combate ao crime organizado sustenta a aproximação
O combate ao crime organizado transnacional é apontado como um dos principais argumentos para o aprofundamento da parceria entre Paraguai e Estados Unidos.
O país é frequentemente citado como rota estratégica do narcotráfico, utilizado para o escoamento de cocaína com destino ao Brasil e a outros mercados internacionais.
Esse cenário pressiona governos da região a ampliar mecanismos de cooperação em segurança.
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